Maria do Caritó!

 

Crônica um.

Maria do Caritó!

Direção – João Paulo Jabur.

Gênero – Comédia Nacional



Não é sobre religião, não, não é.

É sobre não deixar que rejam a sua vida.

O leme é seu navegue por mares nunca dantes navegados, pesque, banhe-se em águas turvas, correntes, exponha sua nudez ao gélido mundo molhado, saboreie o encanto da sereia, observe o vai e vem das ondas, mas não o entregue a ninguém.

O barco pode ser deixado à deriva, pode ser empurrado por uma tormenta, pode balançar ao sabor das ondas e quase afundar, mas o comando é seu, comande.

Quando assisti ao filme, Maria do Caritó, duas coisas me chamaram a atenção, a primeira, o nome dado à personagem e a segunda, por ser Lilia Cabral a protagonizar. Aí a linguagem cantada, rimada deixou a trama muito mais atraente, não resisti.

Lilia, a meu ver, deu à Maria a leveza, a inocência esperta e o gracejo que pedia a personagem. Não houve apelação sexual, embora este, o lema do enredo, ou melhor a falta dele, fora tratado na medida graciosa da linguagem encrustada de ditados e dizeres regionais. Foi a escolha perfeita, pois Lilia com seu tamanho, grande, emprestou a ela a inocência desengonçada dos gigantes das fábulas.

Bem, Maria prometida ao santo por seu pai desde o nascimento, virgem de coração ardente, almejando o seu primeiro e único amor que ainda não despontara, fazia promessas e simpatias, deixando o pobre do Santo Antônio afogado em balde com água a fim de que esse, lhe trouxesse o marido ideal. Assim lá se iam 50 anos vividos de esperanças nunca dantes perdidas.

Enfim chega à cidade o circo, trazendo debaixo de sua lona muito mais que só risos e espetáculo, há de se contar também as histórias trazidas nas bagagens, sem deixar de notar a safadagem transbordante incrustada no ser masculino, o que veio e tornou-se o prometido, fazendo par com a mocinha ingênua apanhada em cidade qualquer, àquela deslumbrada da vida fora de casa, trazendo muito mais lágrimas e dor que risos frouxos, muitos segredos!

Maria foi engambelada pela igreja que barganhava sua virgindade santa, como mercadoria de milagres, tudo interesse e conchavo político, por seu pai que comercializava seu suor transbordante de toda a manhã, aquele trazido dos sonhos ardentes, como elixir milagreiro e por fim por aquele ao qual ela quase entregou sua pureza, um safardana cheio de conversas e malemolências, cujo não merecia sequer uma oração.

Ao perceber-se desencantada por tudo e por todos, Maria tomou pé de sua existência e foi sozinha, caminhar na estrada que só pertencia a ela. Foi entregar-se ao mundo e ele que a tomasse como bem desejasse, pois nada mais importava a não ser, a própria vida e desta ela aproveitaria cada oportunidade.

É sobre libertação.

Sobre perceber-se presa a dogmas e opiniões alheias. De apegar-se a fiapos e restos de outrem. 

Maria do Caritó é o retrato da mulher brasileira, de muitas delas que se deixam reger, que se deixam conduzir. Ela representa a mulher sem voz, submissa às verdades terceiras, afogada em desejos calados, dormidos, vistos como pecaminosos, sujos e a igreja, por sua vez, executa o seu papel perfeitamente como porta voz de Deus, acorrentando o fiel, bem como lhe oferecendo uma lista de castigos para cada deslize cometido, ela sabe muito bem onde apertar o nó.

Finalmente Maria, vestida dos retalhos acumulados por anos a fio, segue estrada, sozinha, altiva e sabida de toda a verdade, lá se foi. http://www.adorocinema.com/filmes/filme-261268/

Anna Costa.

Valparaíso de Goiás – GO 23/08/2020.

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